10 de setembro de 2004

Revista Trip: Sensualidade tem a ver com autenticidade

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Junho de 2004

"As pessoas me convidam para debater o homossexualismo como se eu tivesse muito a dizer sobre”


Olhando assim de pertinho, a boca de Alinne Moraes é uma espécie de sofá da casa da vó da gente, daqueles bons de esparramar em dias de chuva: três lugares, no barato, almofadas soltas, tecido macio. Com a diferença que ela fala. E bem. Desde que trocou a carreira de modelo pela de atriz, Alinne passou a dar mais valor ao que sai de sua boca. E ao que entra em sua cabeça.

Na sua mesinha-de-cabeceira, por exemplo, ao lado da foto do namorado, Cauã Reymond, uma
edição de Hamlet tomou o lugar do último número da sofisticada revista W. Está disposta a aprender. Para fazer a surfista Moa da novela Da Cor do pecado, a atriz teve de aprender a surfar e a sofrer. Deu certo.

Sua boca anda se despedaçando em labiondentais chiadas, algumas maduras demais para os 21 anos que tem: sacrifício, fé, surf, sofrimento, fama e felicidade. Vida, enfim. Palavras saídas de uma cavidade rosa bebê, rodeada por olhos verdes, covinhas fugazes, pensamentos maneiros e namorados felizes. Muito felizes, provavelmente. Alinne não faz mais pose. Agora sua boca fala por si.
“Não podia viver presa a um mundo em que o maior aprendizado é saber a última fórmula de emagrecimento em 24 horas. Ou como se equilibrar num salto sete e meio. Um mundo de sacrifício e que a gente sabe que vai acabar logo. Queria mais para mim”.
Alinne nuna foi um modelo de modelo. Não tinha paciência para a conversa fiada de salão, não sabe o creme certo para sua pele morena, não gosta de fazer dietas, não mentia sobre sua altura (‘No mundo da moda, quem tem 1,73 metro como eu arredonda rapidinho pra 1,75’), prefere sandália de dedo a qualquer sapato apertado e – caramba, issosim vai contar qualquer manual de estética – rói as unhas sem parar.
Ainda assim, dos 14 aos 18 anos, foi capa de revista em Paris, Tóquio, Milão e Nova York. Fez sucesso, juntou dinheiro e dúvidas. Aliás, mais dúvidas do que dinheiro. “Como modelo, você passa uma boa parte da vida metida em metrôs pelo mundo inteiro, entregando book, se aprontando para testes, competindo com outras garotas. Quando vê, a vida passou e você nem pôde aproveitar. A carreira de atriz é que me salvou.”

Do book para a telinha


A salvação de Alinne chegou quando Ricardo Waddington, diretor de novelas da Globo, colocou os olhos em suas fotos. Ele estava selecionando meninas para a nova produção da emissora (a novela Coração de Estudante) e sobrou uma vaga para Alinne. Ela topou o desafio, mesmo sem saber ao certo onde a brincadeira ia dar. E a julgar pelo primeiro dia de gravação, quase deu em lugar nenhum.

“O ASSUNTO. NÃO TINHA, MAS FIQUEI CONTENTE DE O MEU TRABALHO SEVIR PARA DERRUBAR PRECONCEITOS”

“Foi uma merda, cara! Uma cena que deveria ser feita em meia hora levou quase seis. Eu errava tudo. Mas o pessoal foi paciente e repetia numa boa. Depois, quando assisti ao capítulo na TV, achei que ficou bom. E relaxei.”

Não deu para relaxar muito na experiência seguinte. Em Mulheres Apaixonadas, Alinne encarou o papel de Clara, uma menina que gostava de outra menina. A atriz aparecia na tela com uniforme de colégio, maria-chiquinha e bocado de batom realçando o tamanho de sua boca. Um resumo das taras de todos nós. Estava ótima.
Nas ruas, era assediada por garotos e garotas. Levou numa boa. Só se irritava quando as pessoas queriam transformá-la em especialista no assunto. Da mesma forma que o papel de Moa não a transforma em jurada de campeonato de surf, viver Clara não a fez especialista na causa homossexual.
“As pessoas me convidam para debater o homossexualismo como se eu tivesse muito a dizer sobre o assunto”. Não tinha. Mas fiquei contente de o meu trabalho servir para derrubar alguns preconceitos, era isso que a gente procurava. Eu recebia cartas de gente contando que a novela estava ajudando-as a assumir o homossexualismo. Isso é bacana.”

Neruda e Chet Baker


A sensualidade de Alinne, ela garante, não está em lugares óbvios, como em seus dois palmos de coxa. Nem – aí não, menina, aí não – em sua boca. Aos poucos, foi descobrindo uma sensualidade escondida em atos cotidianos. Como lavar a louça, por exemplo. Ou comprar coisinhas gostosas para o namorado (“Cauã é especial e tem tudo a ver com meu amadurecimento”) no supermercado. Ou escolher bugigangas legais nas lojinhas do Saara, rua de comércio popular no centro do Rio. Ou ler Neruda, ouvir Chet Baker, assistir à Fernanda Torres interpretando. Alinne diz que sexo é bom. Mas não basta.
“A sensualidade tem a ver com autenticidade. É com a pele da gente.” A pele de Alinne é lisinha, lisinha. Nada de silicone, nada de botox e – isso é realmente espantoso- nada de tatuagem. Não há vestígio de signos do zodíaco, nome do namorado, florzinha do campo, personagem de desenho animado ou santo de devoção.
De falso, na atriz, só o próprio nome. Os enes dobrados de Alinne e a troca do i pelo em Moraes vieram depois de uma consulta a uma numeróloga. Ela ri da história. “Na verdade eu acho bagaceira demais, mas está dando certo e não quero mexer. O negócio é ter fé”. Quando sai da praia, Alinne carrega o namorado pela mão, o texto da novela decorado na cabeça e um pouquinho de areia grudada no bumbum. Tem gente que chama isso de felicidade.












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